Fórum
Criança
Violência e abuso contra os pequeninos
O
que fazer quando um aluno sofre abuso ou agressão? O que não fazer?
Qual é o papel da Igreja? Por que um pai espanca seu próprio filho?
A Dra. Maria Leolina
Cunha é uma respeitada autoridade sobre a Defesa da Criança. Ela é
especialista em Enfrentamento da Violência Doméstica contra Crianças
e Adolescentes pela Universidade de São Paulo (USP). Em 1999, fundou
o Centro de Combate à Violência Infantil (CECOVI), instituição sem
fins lucrativos que atua na capacitação, prevenção, atendimento a
vítimas e produção de material técnico científico sobre o fenômeno
da violência intra e extrafamiliar na infância e adolescência. Em
dez anos de existência, o CECOVI alcançou 15.794 pessoas entre pais,
professores e vítimas. Na entrevista concedida por telefone à
Compassion Brasil, Lina, como gosta de ser chamada, esclareceu
dúvidas enviadas pelos Projetos a respeito do tema.
Como Projetos e
escolas podem trabalhar para minimizar a agressão ou abuso sexual
dentro do ambiente familiar?
Em caso de agressão,
a prevenção deve ser direcionada aos pais, pois muitas vezes eles
reproduzem a violência que sofreram em casa. Em relação ao abuso
sexual, a prevenção deve ser voltada às crianças e adolescentes,
conscientizando que o corpo pertence a eles, que ninguém pode tocar
nesse corpo, seja pessoa conhecida ou desconhecida. O Projeto tem
papel fundamental de preparar a criança para que ela saiba se
proteger e dizer “não”.
O que o educador
não deve fazer ao suspeitar ou tomar conhecimento que a criança
sofreu algum tipo de agressão ou abuso?
Primeiro - não pode,
em hipótese alguma, comentar isso com ninguém, muito menos com
outros alunos. O assunto tem de ser trabalhado somente por quem
interessa, isso é, diretor, coordenador pedagógico, psicólogo e o
professor. Se a criança pedir ao professor para guardar segredo, ele
deve dizer que não vai guardar, senão não poderá ajudá-la. Segundo -
caso os pais sejam chamados, escute-os separadamente. Se um dos
dois estiver mentindo, haverá contradições. Não escute a criança
junto aos pais. Ela pode ficar intimidade e não contar a verdade.
Qual é o perfil
de uma pessoa que agride os filhos?
O agressor físico
não vê a criança como sujeito de opinião e direitos, mas como
objeto. Ele sempre vai descrever essa criança como uma pessoa ruim,
desobediente, de má índole e que causa problemas em casa.
Geralmente, vai defender a disciplina severa. Ele também pode ser
envolvente. Muitas vezes, se faz de vítima de tal forma que não é
raro os educadores culparem a criança, achando que ela dá motivos
para ser espancada. Outra questão que não pode ser descartada é o
uso de drogas e álcool. Se os pais têm comprometimento nessa área,
isso pode se tornar um elemento deflagrador da violência.
E em caso de
abuso sexual?
Em geral, o abusador
é uma pessoa possessiva com a criança. O Projeto vai perceber que
essa criança não tem amigos, não pode frequentar festinhas, não tem
relacionamento social e que a família é fechada, quase não interage
socialmente.
Quais são os
sinais que denunciam o abuso e a agressão?
Em caso de maus
tratos físicos, uma criança que é espancada frequentemente tem em
seu corpo manchas de diversas cores e cicatrizes. Em caso de abuso
sexual, a criança vai mostrar um comportamento e conhecimento sexual
inapropriado para a sua idade.
O que leva uma
pessoa a cometer abuso?
Vejo que existem
três níveis: mental, cultural e espiritual. Algumas pessoas sofrem
de sérios distúrbios psiquiátricos. Esse número é pequeno, estima-se
que apenas 10% dos casos sejam graves. A questão cultural também é
forte: pessoas que apanharam muito ou foram espancadas quando
crianças agem da mesma forma com o filhos. Mesmo em caso de abuso
sexual, existem famílias em que a prática se instala por gerações.
São questões culturais que devem ser quebradas por meio da
prevenção. Também não podemos nos esquecer que temos um inimigo,
Satanás. Ao destruir a vida de uma criança, ele sabe que está
destruindo a imagem de Deus. Se essa criança não for curada, vai
tornar-se um adulto com sequelas, uma pessoa doente, inclusive
espiritualmente falando.
Como cristãos, o
que podemos fazer?
Devemos trabalhar o
perdão no resgate do sobrevivente das agressões e abuso. A vítima
traz um ódio muito grande contra o abusador ou agressor, contra a
família que não a protegeu e até mesmo contra o próprio Deus que, em
sua ótica, não fez nada para evitar a situação. Apenas a Igreja tem
o poder de trabalhar o perdão e é só por meio dele que a vítima vai
conseguir se libertar da amargura.
Exclusivo on-line
Quais crianças são
mais suscetíveis à violência?
- Crianças de
gravidez não desejadas.
- Crianças que
exigem atenção especial (recém nascidos, lactantes, portadoras de
doenças crônicas, deficientes físicas, etc).
- Crianças com
famílias desajustadas.
- Crianças de
casamentos anteriores.
- Crianças
hiperativas.
- Crianças adotadas
apenas para satisfazer carências egoístas dos pais.
Quais são os sinais
de maus tratos que uma criança apresenta?
As crianças vítimas
de maus tratos temem os pais de forma exagerada, têm baixa
auto-estima, faltam constantemente à escola, são nervosas e sempre
estão em estado de alerta, apresentam comportamento agressivo, tem
baixo aproveitamento escolar, ocultam as lesões que sofrem, são
depressivas, tímidas, isoladas e muito tristes, fogem ou buscam
ficar longe de casa. Crianças muito pequenas choram sem explicação
ao se aproximar do pai, da mãe, da babá ou de outro responsável.
Abuso sexual
O abuso sexual é
mais comum do que a maioria das pessoas acredita e está presente em
todas as classes sociais. Veja alguns dos mitos mais frequentes:
|
MITO |
VERDADE |
|
As crianças
possuem imaginação fértil e inventam ser vítimas de abuso
sexual. |
Só 8% das
crianças mentem acerca deste assunto. Os outros ¾ das
histórias inventadas pelas crianças são induzidas por
adultos. |
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O abusador
sexual é um psicopata, um tarado que todos reconhecem na
rua.
|
85% a 90%
dos agressores são pessoas conhecidas das crianças. |
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O tempo
cura. A criança viti8mizada sexualmente esquecerá a
experiência. |
A criança
nunca esquecerá um abuso sexual do qual foi vítima. |
|
O abuso é
coisa rara e jamais acontecerá com meus filhos. |
1 entre 3 a
4 meninas e 1 entre 6 a 10 meninos serão vítimas do abuso
sexual até os 18 anos. |
|
Quando a
criança não esboçar uma resistência, na realidade não existe
abuso sexual. |
A criança
nunca deve ser vista como culpada. |
Fonte:
Por uma cultura de paz - Publicação CECOVI
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EXPEDIENTE
Compassion Brasil é uma publicação trimestral da
Compassion do Brasil
Diretora Nacional. Susete Cardoso
Redação e edição: Ana Rafaela dos Santos
Fotos: Arquivo Compassion do Brasil
Jornalista responsável: Tania Mara Mendes MTB 31.525